A escolha de Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como novo líder supremo do Irã, marca uma das transições mais delicadas desde a Revolução Islâmica de 1979. Filho do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel no fim de fevereiro, Mojtaba foi anunciado neste domingo (8) pela Assembleia de Especialistas, órgão formado por 88 clérigos responsáveis por eleger a mais alta autoridade política e religiosa do país.
O cargo de líder supremo concentra poderes amplos. Além de chefe de Estado, Mojtaba passa a ser comandante-em-chefe das Forças Armadas e autoridade máxima em assuntos religiosos, segundo o princípio do Velayat‑e Faqih, base do sistema político iraniano. Essa função se sobrepõe, em muitos aspectos, ao papel do presidente, responsável apenas pela condução do governo e da administração cotidiana.
Embora seja agora tratado como aiatolá, Mojtaba sempre foi descrito como clérigo de nível intermediário, com trajetória marcada mais pela atuação nos bastidores do que por liderança religiosa pública. Durante anos, coordenou o gabinete do pai e construiu relações estreitas com o aparato de segurança, especialmente com a Guarda Revolucionária Islâmica, considerada o verdadeiro núcleo de poder do regime.
Essa proximidade com os setores militares pesa tanto a favor quanto contra sua ascensão. Reformistas iranianos o acusam de ter interferido em eleições presidenciais passadas, especialmente nos pleitos de 2005 e 2009, que culminaram na vitória e reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Naquele período, protestos tomaram as ruas do país e manifestantes chegaram a gritar: “Mojtaba, que morra e não se torne líder supremo”.
A sucessão também reacende um dilema histórico. Um dos pilares da Revolução Iraniana foi justamente o combate à hereditariedade do antigo regime do xá. A ascensão do filho do líder supremo levanta críticas de que o sistema estaria se aproximando de uma lógica dinástica, em contradição com seus próprios fundamentos ideológicos.
Internamente, o discurso oficial é de unidade. Guardas Revolucionários, Forças Armadas e lideranças do Parlamento declararam lealdade ao novo líder. Já no plano internacional, a reação foi imediata. Antes mesmo do anúncio oficial, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o sucessor de Khamenei “não vai durar muito” e classificou Mojtaba como “inaceitável”.
O Irã, por sua vez, descartou qualquer cessar-fogo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, declarou: “Não começamos esta guerra”, afirmando que, enquanto os ataques continuarem, o país seguirá focado exclusivamente na defesa. Na mesma linha, o chanceler Abbas Araghchi disse que o Irã precisa “continuar lutando pelo bem do nosso povo”, acusando EUA e Israel de atacarem civis, estudantes e hospitais.
A guerra já provocou impactos globais. O preço do petróleo ultrapassou a marca de US$ 100 por barril, refletindo o temor dos mercados diante da escalada militar e da instabilidade no Oriente Médio.
Enquanto imagens de mulheres orando em Gaza, multidões com bandeiras palestinas e faixas urbanas reduzidas a ruínas circulam pelo mundo, a chegada de Mojtaba Khamenei ao topo do poder simboliza não apenas uma sucessão, mas um momento de incerteza profunda, repressão crescente e riscos elevados de prolongamento do conflito regional.



