Uma mulher atendida no Hospital Natan Portella, em Teresina, recebeu um laudo médico apontando uma condição típica da próstata — órgão inexistente no corpo feminino — revelando falhas graves no sistema de telerradiologia utilizado na rede pública. A situação, denunciada por profissionais da própria instituição, levou o Ministério Público do Estado a instaurar um inquérito civil para investigar possíveis irregularidades na prestação do serviço.
E o caso não foi o único, a tecnologia, que deveria agilizar o acesso a diagnósticos por imagem, tornou‑se alvo de críticas depois que pacientes passaram a relatar falhas com exames. O caso que mais gerou repercussão foi o de uma mulher que recebeu um laudo sobre próstata – órgão inexistente no corpo feminino. Situação ainda mais alarmante foi a de pacientes oncológicos que tiveram resultados classificados como normais, apesar do diagnóstico prévio de câncer.

A responsável técnica pelo setor de imagem do Natan Portella, Eliane Mendes, reconheceu publicamente os problemas e expressou preocupação com a gravidade das falhas em entrevista à TV Clube. Em um desabafo contundente, afirmou que está “constantemente detectando erros graves”, sobretudo em exames de pacientes com neoplasias. Segundo ela, laudos equivocados podem atrasar tratamentos essenciais e agravar o quadro clínico e colocar a vida do paciente em risco, alertou.
“Obviamente, uma neoplasia exige tratamento precoce. Mas, quando há um laudo equivocado, o paciente pode até ir a óbito ou ter o quadro agravado”
A denúncia formal ao Ministério Público partiu dos radiologistas concursados da unidade, que também relataram desvio de função após a adoção do modelo de telerradiologia. O presidente do Sindicato dos Médicos do Estado do Piauí (Simepi), Samuel Rêgo, declarou que a substituição de profissionais presenciais por empresas terceirizadas é irregular e já havia sido questionada pelo Conselho Regional de Medicina.
Rêgo foi enfático ao mencionar o risco para a população:
“Descobrimos muitos laudos errados, e alguns de forma grotesca. Pessoas estão recebendo laudos de normalidade enquanto podem estar carregando um câncer sem saber.” Sua fala reforça a sensação de vulnerabilidade entre usuários do sistema público.
O presidente do CRM‑PI, João Moura Fé, acrescentou que o problema não se limita ao Natan Portella. Segundo ele, a terceirização do serviço de telerradiologia avançou para unidades da rede municipal, o que gerou preocupação entre conselheiros e levou à abertura de diálogo com a Fundação Municipal de Saúde para revisão do modelo. Moura Fé defende que a telemedicina pode ser ferramenta importante, “mas deve auxiliar, não substituir” o trabalho presencial.
No caso em questão, a paciente recebeu o diagnóstico de ureterohidronefrose bilateral, que corresponde à dilatação dos ureteres e dos rins em ambos os lados do corpo. Embora essa condição possa ter diversas causas, uma das mais comuns em pessoas do sexo masculino é o aumento da próstata, que pode comprimir as vias urinárias.
Entretanto, mulheres também podem apresentar hidronefrose ou ureterohidronefrose bilateral, mas por outras condições, em mulheres, nunca será a próstata. Isso torna o diagnóstico, nos moldes apresentados, impossível em uma pessoa do sexo feminino, sendo incompatível com a realidade anatômica da paciente.
A repercussão também levou o Ministério Público a solicitar esclarecimentos ao Conselho Federal de Medicina, que reiterou a necessidade da presença física de radiologistas em exames com contraste, tomografias e ressonâncias. O CFM reforçou que, nesses casos, o médico precisa acompanhar diretamente as condições do paciente.
Em resposta às denúncias, a Secretaria de Saúde do Estado (Sesapi) divulgou nota oficial empenhando‑se a implantar um sistema de controle de qualidade para monitorar amostras e laudos. A pasta defende que erros podem ocorrer tanto em telelaudos quanto em análises presenciais, mas afirma que adotará medidas para fortalecer a segurança assistencial.
A advogada Andressa Taiula Noleto, ao comentar os potenciais impactos jurídicos, destacou que o Estado pode ser responsabilizado caso falhas diagnósticas causem danos irreversíveis aos pacientes. Em suas palavras,
“Imagina só: você receber um diagnóstico de neoplasia quando, na verdade, está saudável. Ou, ao contrário — o que é ainda pior — receber uma notícia que traz uma falsa esperança de cura, quando na realidade a sua doença está em estado mais avançado ou não regrediu. Criar essa expectativa é muito frustrante. E quem responde, sempre envolvido em casos assim, são os entes públicos. O responsável será o Estado, que responde objetivamente, independentemente de ter culpa ou não”, alertou a advogada
Mesmo diante das críticas, a Fundação Municipal de Saúde reafirmou que a telerradiologia reduziu prazos de entrega de laudos – que antes chegavam a três meses – para cerca de 24 horas. A instituição afirmou ainda que radiologistas da rede serão redistribuídos para unidades com maior carência de especialistas, garantindo reforço em áreas sensíveis.



