O prefeito de Regeneração, Eduardo Alves Carvalho, o Seu Dua, recuou. Na tarde desta sexta-feira (12), horas antes da votação marcada para as 19h, o chefe do Executivo enviou à Câmara Municipal ofício solicitando a retirada do Projeto de Lei nº 04/2026, que propõe um novo plano de carreira para o magistério.
O projeto, apelidado pela categoria de “Plano de Desmonte”, seria reprovado com folga. Vereadores da própria base aliada já haviam sinalizado voto contrário. A derrota era certa. O prefeito preferiu recuar.
A expectativa era de uma sessão histórica. Os professores de Regeneração organizaram uma ampla mobilização para a sessão, e a categoria prometia lotar o plenário para acompanhar de perto como cada vereador se posicionaria diante do Projeto. Mas já aos 45 do segundo tempo, o prefeito pediu a retirada do projeto para “fazer adequações” no texto.
“Após as devidas adequações, o referido projeto de lei será novamente encaminhado para apreciação” — escreveu Seu Dua no ofício enviado à presidente da Câmara, vereadora Jaqueline Mendes.
O pedido de vista que paralisou a votação
A novela começou no mês de abril, mas ganhou um capítulo tenso na noite de 29 de maio. Naquela sessão, tudo indicava que o projeto seria rejeitado. Os vereadores Jailton do Cruz, Daniel Moreira, Ciríaco Araújo, Clecyo da Biluca e outros já haviam manifestado voto contrário.
Mas, no momento da votação, o vereador Samuel da Real pediu vista do projeto. A votação foi interrompida. O plenário quase foi ao chão.
Nos bastidores, analistas afirmam que o pedido de vista de Samuel foi estratégico. O recurso é uma prerrogativa parlamentar e, ao perceber que o projeto seria derrotado, o vereador evitou uma derrota imediata e constrangedora para o prefeito. Assim, ganhou tempo.
Professores revoltados passaram a chamar Samuel de “Vereador Pede Vista”. A professora Daluz Xavier desabafou:
“O vereador que pediu vista de um projeto desse, depois de várias reuniões, discussões e audiência pública, não poderia ter esse direito. Um vereador que não esteve presente em todo esse processo jamais deveria barrar a votação.”
O grande derrotado: Samuel da Real

O entendimento é que Samuel não pediu vista para “estudar” o projeto. Ele já sabia que o projeto seria reprovado. O pedido de vista foi uma manobra para:
Adiar a votação
Dar tempo para Seu Dua recuar com dignidade (enviando o ofício de retirada)
Entretanto, embora tenha conseguido adiar a votação e evitar o vexame do prefeito, Samuel da Real saiu do episódio em profunda desgraça com a categoria.
A análise política nos bastidores foi unânime: Samuel pediu vista para salvar o prefeito da derrota. O recurso é legal, mas a motivação foi política. E o custo foi alto.
“O fiscal do povo” se sacrificou. Salvou o prefeito da derrota pública. Mas perdeu a confiança dos professores, vários de seus eleitores e saiu sangrando muito do episódio.
O desgaste foi tamanho que ele teve que ir a público em suas redes sociais dar explicações para a população sobre o ocorrido.
O recuo de Seu Dua

Em seu quarto mandato como prefeito de Regeneração, Eduardo Alves Carvalho tem uma aversão histórica a derrotas políticas. Raramente viu projetos seus serem rejeitados na Câmara.
O caso da Regprev (Regime Próprio de Previdência de Regeneração) é exemplar: Seu Dua propôs descontos sobre aposentados e pensionistas. Ao perceber que seria derrotado, recuou, modificou a proposta e conseguiu aprová-la.
Para aprovar a reforma da previdência de Regeneração, a Prefeitura fez um acordo com a oposição e sindicatos para retirar o artigo 11 do projeto original, que previa um desconto previdenciário de 14% para aposentados e pensionistas que ganham acima de um salário-mínimo.
Após o parágrafo ser suprimido da lei, o prefeito abriu caminho e aprovou, por unanimidade, na noite de sexta-feira, 13 de junho de 2025, os Projetos de Lei nº 01 e nº 05, que reformaram o regime próprio de previdência de Regeneração.
A derrota era certa na noite de 29 de maio. O pedido de vista de Samuel evitou o constrangimento. O ofício de retirada, enviado na sexta-feira, confirmou o recuo.
Pediu o projeto de volta aos 45 do segundo tempo

Há quem diga que o prefeito Seu Dua calculou todos os custos, principalmente em um ano eleitoral, e preferiu recuar.
O projeto enfrentou forte resistência. Com vereadores da própria base cogitando votar contra a retirada de direitos dos professores — sinal evidente de racha político — e diante da enorme impopularidade consumada do projeto, a derrota era certa.
Em ano eleitoral, o desgaste poderia custar votos a seus aliados e comprometer sua força junto a deputados e senadores.
Diante disso, Seu Dua optou por retirar o projeto. Assim, evitou também sair com a imagem de derrotado.
A estratégia, no entanto, não significa abandono: a expectativa é que volte depois com modificações, tentando maquiar os pontos polêmicos e reorganizar sua base para aprovar uma versão ajustada — como já fez anteriormente com a Regprev.
Não foi reprovado, então pode voltar
Um vereador da oposição, com quem o Portal Bruenque conversou, acredita que, como o projeto não foi reprovado, Seu Dua pode mandar um novo projeto ainda este ano.
A leitura é de que o recuo não foi abandono, mas sim uma manobra para ganhar tempo: preparar seus vereadores, reorganizar a base e apresentar um texto com ajustes pontuais que possam suavizar a rejeição popular. A estratégia já foi vista no caso da Regprev, quando o prefeito voltou atrás, retirou o ponto mais polêmico do projeto e conseguiu aprová-lo.
Para evitar a rejeição, o prefeito fará concessões, tentará recompor a base e quebrar a resistência entre seus próprios vereadores.
Em nota, categoria do magistério alerta: não é vitória definitiva
Após o prefeito Eduardo Alves Carvalho solicitar a retirada do Projeto de Lei nº 04/2026, a categoria do magistério de Regeneração divulgou nota oficial sintetizando seu posicionamento:
“Esse ofício muda o jogo. O Executivo pediu pra retirar o PL 04/2026 da pauta hoje para ‘fazer adequações’. O que isso significa na prática:
- Nós ganhamos tempo, não a guerra.
- A pressão funcionou.
- Risco: ‘Adequações’ sem transparência pode ser só maquiagem para passar o mesmo PL depois.”
A resposta dos professores foi imediata e direta:
Qualquer adequação deverá ser discutida publicamente com a categoria
O movimento manterá denúncia no Ministério Público
A categoria exige saber: quais são as adequações? Qual o novo prazo? Haverá nova audiência pública?
A ironia do destino
Por ironia, foi o próprio prefeito Seu Dua que aprovou o atual plano do magistério de Regeneração em 2012 — considerado muito avançado, ficando atrás apenas do plano de Parnaíba — que garante todos os direitos que ele agora tenta retirar.
Agora, os professores acompanham: quais serão as “adequações”? O projeto voltará maquiado? Ou o prefeito aguardará apenas o momento certo para aprovar o projeto do retrocesso do magistério em Regeneração?




