Na manhã desta quinta-feira, 20 de março, o sargento Giordano, coordenador do Pelotão Mirim de Regeneração, participou do programa Tribuna Informativa, da Rádio Tribuna de Regeneração, para compartilhar a inspiradora trajetória de criação, consolidação e desafios do projeto. Em entrevista ao radialista Tarcísio Silva, o sargento detalhou a história de um programa que tem transformado a vida de crianças e adolescentes, afastando-os do mundo do crime e das drogas, e promovendo valores como disciplina, respeito e cidadania, fortalecendo os laços entre os jovens, suas famílias e a comunidade.
As Origens: Amarante e a Semente do Pelotão Mirim
A história do Pelotão Mirim em Regeneração tem suas raízes na cidade de Amarante, onde o então cabo Giordano iniciou o projeto de forma voluntária. Na época, convidado pelo prefeito Diego Teixeira, Giordano viu de perto o impacto positivo que a iniciativa poderia ter na vida de jovens em situação de vulnerabilidade. O sucesso em Amarante gerou questionamentos na cidade de Regeneração: “Por que não trazer esse projeto para cá?”
– “O pioneiro no Pelotão Mirim foi a cidade de Água Branca, e em segundo lugar, Amarante. Na época, o prefeito era Diego Teixeira, um grande amigo meu, e ele me convidou para ser voluntário lá. Eu sempre divulgava as atividades realizadas no grupo de WhatsApp Somos da Vila. Quando eu postava as atividades do Pelotão em Amarante, ficava triste ao ver as pessoas de Regeneração me perguntarem: ‘Mas cabo, na época eu era cabo, o senhor trabalha em Regeneração? As crianças aqui se perdendo no mundo do crime, das drogas. O senhor trabalha com esse projeto lá em Amarante e não aqui?’. Então eu lutei. Trouxe o secretário de segurança da época, fizemos uma audiência pública na Câmara. Foi a coisa mais linda do mundo: secretário de segurança, prefeito municipal da época, todos presentes. E, finalmente, foi feito um termo de cooperação para a implantação do Pelotão Mirim aqui na cidade de Regeneração.”
O Desafio de Implementação em Regeneração
Ao decidir expandir o projeto para Regeneração, o sargento Giordano enfrentou resistências significativas. O então secretário de segurança, Fábio Abreu, duvidava que o Pelotão Mirim pudesse prosperar na cidade, possivelmente por questões políticas. Sem apoio inicial, Giordano precisou contar com a mobilização da comunidade e a ajuda de voluntários para viabilizar o projeto.
– “Apesar da minha proximidade com o então secretário de segurança, Capitão Fábio Abreu, com quem já havia realizado diligências juntos atrás de bandidos e mantinha essa intimidade para conversar, por várias vezes eu fui à Secretaria de Segurança. Ele sempre me recebia prontamente. Porém, quando o assunto era a implantação do Pelotão Mirim em Regeneração, ele não acreditava que o projeto pudesse funcionar na cidade. Ele simplesmente dizia que em Regeneração não iria funcionar. Acho que foi alguma questão política que fazia com que ele recuasse.”
Mas Giordano Gonçalves Batista não desistiu.
– “Na terceira vez que fui falar com ele sobre isso, ele deu a mesma resposta. Então, eu disse: ‘Capitão, me perdoe, mas vou ao Comando Geral da Polícia Militar e colocarei o Pelotão Mirim em Regeneração.’ Ele olhou para mim e disse: ‘Se você colocar o Pelotão Mirim lá, você tem muita coragem.’ Eu, de forma espontânea, respondi: ‘Mas o homem sem coragem, Capitão, é só um homem.’”
Compra de Uniformes
Um dos primeiros marcos foi a confecção dos uniformes para 150 crianças. Sem recursos oficiais, o sargento lembrou que, para implantar o Pelotão Mirim, houve uma reunião no gabinete da promotora, Dra. Valesca, com a então secretária de educação, Maria Pereira.
– “Elaborei um projeto que enviei à promotoria e ao juiz Dr. Alberto Franklin. Também enviei outro à secretária de educação, Maria Pereira. Na época, 50% dos custos do fardamento – que incluía calças de moletom, camisetas e bonés – foram custeados pela Secretaria de Educação. Os outros 50% vieram de transações penais de procedimentos que fazíamos aqui, principalmente relacionadas a crimes de trânsito, revertidas para o projeto, sob supervisão da Dra. Valesca.”
No total, foram confeccionados 150 uniformes, com um custo aproximado de R$ 10 mil. Esse esforço permitiu que as crianças participassem do desfile de 7 de setembro, um dos mais bonitos e elogiados pela população de Regeneração.
A Consolidação: O Papel Fundamental das Secretárias de Educação: Maria Pereira e Veronice Araújo

Entre 2019 e 2024, o Pelotão Mirim contou com o apoio fundamental das então secretárias de educação Maria Pereira e Veronice Araújo. Maria Pereira foi essencial no início, garantindo a alimentação e o suporte logístico necessário para as atividades.
“Lembro que Maria Pereira perguntou: ‘Cabo, como o senhor vai querer essa ajuda? Por exemplo, se eu mandar preparar a alimentação em um dia, é necessário definir o horário. Se for comida quente, não pode chegar fria, e se for algo gelado, não pode chegar quente.’ Minha resposta foi: ‘Eu prefiro que a Secretaria me forneça os materiais, pois quero que as famílias participem do projeto. Sem elas, eu não consigo.’ Minha ideia era ter as mães presentes para cuidar da questão alimentar, preparando as refeições e lanches das crianças. Queria que as famílias estivessem ativamente envolvidas no projeto.”
Já Veronice Araújo ampliou o impacto do projeto, implementando ações educativas e sociais que fortaleceram a iniciativa.
– “A melhor e mais eficiente ajuda dada ao Pelotão Mirim pela Secretaria de Educação, embora Maria Pereira tenha sido ótima, veio da professora Veronice. O apoio dela foi essencial para desenvolver diversas ações.”
7 Anos de Pelotão Mirim em Regeneração
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Durante esse período, o projeto realizou eventos marcantes, como comemorações do Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia das Crianças, além de competições esportivas que revelaram talentos locais. Em 2019, por exemplo, nove crianças do Pelotão Mirim participaram de uma competição nacional de judô em Teresina, conquistando medalhas de ouro em suas categorias.
“No Dia das Crianças de 2019, realizamos uma competição esportiva no Aurora com futebol de salão, capoeira e judô. O professor voluntário de judô gravou um vídeo dos meninos competindo e enviou ao presidente da Federação de Judô do Piauí. Pouco tempo depois, recebi um ofício solicitando a indicação de 10 meninos e meninas, de 8 a 12 anos, para uma competição nacional em Teresina. Conseguimos enviar 9 competidores e, com o apoio da secretária Maria Pereira, todos ganharam medalhas de ouro em suas categorias.”
“Se não fosse o projeto Pelotão Mirim em Regeneração, quem iria saber que esses meninos e meninas tinham potencial para o judô?”, indagou Giordano.
Os Desafios de 2025: A Interrupção do Apoio Alimentar
Com a mudança na gestão da Secretaria de Educação em 2025, o Pelotão Mirim enfrentou novos obstáculos. O atual secretário, professor Cícero Filho, informou que a pasta não poderia mais fornecer os lanches para as crianças, um suporte crucial para o funcionamento do projeto.
– “O novo secretário, professor Cícero, falou para Fátima que as normas na Secretaria haviam mudado e que não havia possibilidade de ajudar mais o Pelotão Mirim na questão do lanche. Ele disse que as normas atuais não possibilitariam que a Secretaria de Educação continuasse ajudando o Pelotão Mirim.”
De acordo com o sargento, infelizmente, não houve uma explicação clara. O secretário apenas mencionou que as normas atuais não permitiam a ajuda, sem especificar os motivos.
– “No primeiro domingo de atividades, liberei as crianças às 10 horas, pois não havia lanche. Na quinta-feira seguinte, entrei em contato com os pais através do grupo de WhatsApp.
Samuel da Real Busca uma Solução

O vereador Samuel, padrinho do projeto, tem sido um aliado fundamental nessa nova fase. Ele intermediou uma conversa com o prefeito, que se comprometeu a ajudar o Pelotão Mirim, solicitando um ofício formal para viabilizar o apoio.
O Impacto do Pelotão Mirim
O Pelotão Mirim já transformou a vida de centenas de crianças e adolescentes em Regeneração. Muitos ex-participantes hoje são técnicos de enfermagem, músicos, militares e profissionais que contribuem positivamente para a sociedade.
“Este ano, por exemplo, temos três jovens que vão completar 18 anos e estão devidamente alistados no exército, esperando serem chamados. O mais impressionante é que, desses três, duas são mulheres. Se não fosse pelo Pelotão Mirim, talvez essas meninas não tivessem interesse na vida militar ou até mesmo em nada produtivo para suas vidas.”
Além disso, o Pelotão Mirim trabalha ativamente no enfrentamento à exploração sexual infantojuvenil, mostrando-se uma iniciativa multifacetada e essencial para a proteção dos direitos das crianças e adolescentes.
Um Compromisso de Vida
Durante a entrevista, o sargento Giordano reafirmou seu compromisso com o projeto:
– “Enquanto eu tiver forças, lutarei por essas crianças e adolescentes. Elas são o futuro da nossa nação, e nada me fará desistir. Eu trabalhei em Regeneração durante 12 anos. Conheço, como ninguém, a realidade das crianças e dos adolescentes dessa cidade, a questão de vulnerabilidade, de estarem à mercê do crime e das drogas. Então, por que saí da parte operacional aqui e não abandonei essas crianças? Porque acredito que, se tiver alguém lutando por elas, essas crianças nunca vão se envolver com drogas nem com crime. Eu nunca vou desistir das crianças e adolescentes de Regeneração. Com a ajuda de Deus e dos pais, nós vamos lutar até o infinito por esses meninos. Nada e ninguém vai nos parar!”
Quando os jovens completam 18 anos, saem do projeto. Atualmente, o Pelotão Mirim da Polícia Militar conta com 150 participantes e um cadastro reserva de mais de 40 crianças aguardando uma vaga na cidade de Regeneração.

